Desde que minha adolescência começou eu tenho essa relação bastante conturbada com minha mãe. Hoje eu estava refletindo sobre esses sentimentos em relação a ela que eu guardo e sobre sentimentos aparentes dela sobre mim. Tem algumas coisas que eu nunca vou perdoar, várias que vão me marcar pra sempre, e algumas feridas que talvez mais tarde voltem com uma força absurda. Mas ela também tem alguns assuntos sobre os quais nunca vai me perdoar, e isso honestamente não é do meu interesse, ela é quem tem que lidar com isso. Desde que eu me lembro meu pai sempre foi o porto seguro, sempre foi mais amigo do que pai, sempre se preocupou em ser exatamente o que ele sentia que queria ser do que em ser o pai que educa e toma posições. O que é ótimo. Minha mãe é mãe, não é amiga, não é alguém que eu conheça se não como mãe. O que é péssimo, principalmente contando o fato que eu moro com ela. Eu entendo perfeitamente que ela vai sempre me amar e demonstra isso das maneiras mais… bem, não sei como ela demonstra na verdade. Mas ela demonstra, e eu sei que me ama. Não é como se fosse de alguma utilidade pra mim, já que ela é mãe e vai me amar de qualquer jeito. Eu não preciso de alguém que demonstre que me ama me dizendo e depois agindo de uma forma que só me traz tristeza, pra me educar? O tempo disso já passou, eu já estou velha demais pra mudar algumas opiniões e atitudes. Eu não sou mais uma criança que pode ser manipulada facilmente ou que não pode saber que o papai noel não existe. É como quando você aprende a andar de bicicleta, primeiro as pessoas costumam aprender com as rodinhas dos lados pra poder equilibrar-se, é como se fosse o papel dos pais. Agora que eu já sei andar sozinha eu mesma tenho que tirar as rodinhas toda vez que eu saio de casa, assim os pais não vêem e não se preocupam se eu vou conseguir me equilibrar. É claro que eu vou conseguir, já aprendi a engatinhar, andar, nadar, cavalgar e andar de bicicleta (sem as rodinhas); faz parte da evolução. Minha mãe ainda tem medo que eu caia e me machuque, claro, ela é mãe e esse é o trabalho dela: se preocupar. Não teria problema se isso acontecesse porque agora eu já sei como me cuidar e não faço mais escândalos quando eu caio e me machuco. Isso tudo não é sobre ser responsável ou não, como ela diz o tempo todo. É sobre saber cair, não ficar histérica (como as crianças ficam quando caem), levantar, limpar a poeira e continuar andando. Eu definitivamente posso fazer isso.
Se a tal da responsabilidade que ela diz é saber que as regras existem, segui-las e viver sua vida assim, eu prefiro não ser responsável. Acho melhor saber que as regras existem, pensar se você quer segui-las, fazer suas escolhas e lidar com as consequências. Não segui-las não significa necessariamente que vai dar tudo errado e você vai acabar se fodendo no final. Veja por exemplo o Bill Gates, ele quebrou a tal da regra ética sobre honestidade. Se fingiu de amigo do Steve Jobs, roubou o programa de computador que ele havia inventado, fez mínimas alterações, lançou-o com o nome de Windows e hoje em dia é o homem mais rico do mundo. Eu não acredito, mesmo, que todos os homens mais ricos do mundo seguiram essas regras que minha mãe diz que eu devo seguir pra ser considerada responsável.
De qualquer maneira, não se preocupe, mãe, eu posso lidar com as consequencias. Já lidei tantas vezes sozinha antes de você descobrir, e sejamos sinceras, tudo se tornou muito mais difícil quando você soube. Sabe aquela história que toda mãe conta? “O mundo ‘ai fora’ é muito pior”? Pela olhada que eu dei eu não concordo. Se você não conseguiu lidar com o “ai fora” isso foi você, se você ainda se assusta com maldades, falsidades e manipulações. É como você mesma diz, eu sou tão perigosa que eu poderia convencer o Papa a fazer sexo em frente a câmeras de TV. E ainda tem medo que eu me machuque? Não seja tão inocente